O MEIO-DIA DA MINHA E DA SUA VIDA


Ao recordar os belos momentos da minha infância querida nas terras interioranas potiguares, sou tomado pela lembrança da hora do meio-dia, quando junto com meus amados irmãos, sentávamos à mesa para saborear aquela comida deliciosa, temperada com amor e carinho, que só a mãe sabia preparar. Velhos tempos, belos dias.

Na hora do meio-dia, gostava de escutar o cantar do vim-vim, pássaro tão conhecido na minha região. Quando esse pássaro cantava e nos encantava, era comum respondermos: “se for bom venha, se for ruim vá embora”, pois, segundo a tradição de nossos pais, o seu canto anunciava que uma visita estava para chegar.

Depois de mais de vinte anos que não escuto o canto do vim-vim, pois não há espaço para ele na grande cidade onde moro, ou porque o mesmo já se encontra entre aqueles pássaros ameaçados de extinção, redescubro um novo sentido do meio-dia. Esta descoberta seu deu a partir da meditação da Sagrada Escritura. Nela, descobri que o meio-dia não significa simplesmente a hora da visita de alguém, mas o tempo sagrado do encontro do homem com Deus. Ele é a visita ilustre que possibilita ao homem entrar numa relação de diálogo e de intimidade, e, ao bater na porta do seu coração, espera encontrar hospitalidade.

O presente texto tem como finalidade apontar um sentido bíblico e antropológico acerca do meio-dia.

O meio-dia na perspectiva bíblica


Na Bíblia, a expressão “meio-dia” (mesembría), é mencionada inúmeras vezes nos mais variados contextos e sentidos. Foi ao meio-dia, ao redor da mesa da refeição, que se deu o reencontro doloroso de José como os seus irmãos (Gn 43,16.25). Foi ao meio-dia que Elias desafiou os profetas de Baal (1Rs 18,27.29), que os filhos de Hemon de Berot chegaram à casa de Isboset (2Sm 4,5) e os israelitas partiram para combater os arameus (1Rs 20,16). Amós profetizou que o sol iria se pôr ao meio-dia (8,11). O profeta Sofonias anunciou que Azoto será expulsa em pleno meio-dia (2,4). O autor do Eclesiástico trata sobre a proteção do Senhor contra o ardor do meio dia (34,19). O salmista compara a realização do direito como a claridade do meio-dia (Sl 37,6). Era conhecida como a hora da ação do mal, da visita do demônio do meio-dia (daimoniou mesembrinou) (Sl 91,6), como se refere algumas versões gregas. O profeta Isaias faz referência sobre a sombra do meio-dia (16,3), da sua claridade (58,10) e do tropeço do povo ao meio-dia (59,10). Jeremias menciona o “grito de guerra ao meio-dia” (20,16) e o destruidor que vem em pleno meio-dia (15,8). O meio-dia era a hora sagrada da oração (Sl 55,17). O Anjo manda que Filipe parta ao meio-dia (ou para o lado do sul) (At 8,26). Em Jó 23,9, Dn 18,4.9, Mateus 12,42 o vocábulo mesembría, aparece se referindo a posição geográfica, ou seja, a região do sul (nótos), de onde se provinha os ventos da chuva. O termo mesembría pode ser encontrado ainda em outras passagens bíblicas como: Is 18,4, Jz 5,10; Dt 28,27; 2Rs 4,20; Jó 11,17; Jr 6,4; Jr 20,16. Encontramos ainda, uma única vez no Novo Testamento a expressão hemera meses (ao meio-dia) no discurso de Paulo diante do rei Agripa (At 26,13).

Como podemos perceber a Bíblia faz menção diversas vezes sobre a hora do meio-dia. No entanto, algumas passagens são bem significativas e merecem uma reflexão a partir do ponto de vista da espiritualidade. Trago à tona para objeto da nossa meditação sete cenas bíblicas, que tratam do meio-dia ou hora sexta (éketes hóras).

Primeira cena: aparição de Mambré


Iahweh lhe apareceu no Carvalho de Mambré, quando ele estava sentado na entrada da tenda, no maior calor do dia. Tendo levantado os olhos, eis que viu três homens de pé, perto dele; logo que os viu, correu da entrada da tenda ao seu encontro e se prostrou por terra. E disse: Meu Senhor, eu te peço, se encontrei graças aos teus olhos, não passes junto de teu servo sem te deteres (Gn 18,1-4).

A visita divina à tenda de Abraão e Sara é uma das mais belas cenas da Escritura. O encontro que Abraão e Sara tiveram com Deus (três homens, ou seja, Deus e mais dois anjos) se deu “no maior calor do meio dia” ou conforme a tradução grega, ao meio-dia (mesembrías). Abraão agraciado, com a visita divina, fez questão que “os homens” permanecessem em sua tenda.

O meio-dia no texto mencionado tem um sentido muito profundo. Trata-se da hora do encontro do homem com o Senhor, que chega na hora inesperada, que se manifesta de forma extraordinária no ordinário da nossa vida e que exige de nós uma atitude de acolhida. O meio-dia para o velho Abraão e a velha Sara foi inesquecível. Naquela hora, o Senhor revela-os que a estéril haveria de gerar e daria a luz um filho (Gn 18,10). Nessa promessa de Deus estava contida uma transformação em suas vidas, pois ao se realizar, Sara saiu de sua condição de mulher marginalizada e maldita. O meio-dia foi a grande virada que ocorreu em suas vidas;

Segunda cena: busca da amada pelo amado


Avisa-me, amado da minha alma, onde apascentas, onde descansas o rebanho do meio-dia (mesembria) para que eu não vaguei perdida entre os rebanhos dos teus companheiros (Ct 1,7).

O tema da busca da amada pelo amado permeia todo o livro do Cântico dos Cânticos. A alma separada do amado deseja ardente unir-se a Ele. Era ao meio-dia, quando se conduzia o rebanho para descansar à sombra, que os enamorados se encontravam. O meio-dia aparece neste contexto como a hora do encontro de duas pessoas envolvidas numa relação amorosa, da intimidade, da aproximação, da convivência, da declaração dos sentimentos.

A literatura espiritual desenvolveu toda uma reflexão acerca da esponsalidade. A amada é comparada a alma que busca unir-se totalmente a Deus, o amado, pois está “doente de amor” (Ct 5,8). Nessa busca espiritual a alma se considera esposa do seu único esposo Jesus Cristo, “o mais belo dos filhos dos homens” (Sl 45,3). Apaixonada pelo amado, para entregar-se totalmente a ele, a alma abandonava todos os outros amores, pois deseja pertencer somente a Ele: “Eu sou do meu amado e meu amado é meu” (Ct 6,3).

O meio-dia na perspectiva espiritual é o momento propicio para o encontro da pessoa amada com seu amado Deus. É a hora do despertar o desejo profundo de querer encontrar o Senhor, de conhecê-lo mais intimamente e de entregá-lo todo o coração. Esse desejo é permanente, insaciável, quanto mais a pessoa cresce na intimidade com Deus, mais cresce a sua ânsia de amá-lo.

Terceira cena: encontro da mulher samaritana com Jesus


Foi, pois, a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, junto da herdade que Jacó tinha dado a seu filho José. E estava ali a fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. Era isto quase à hora sexta (hora ékete). Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber (Jo 4,5-6).

O encontro da Samaritana com Jesus provocou transformação em sua vida. Jesus desperta naquela mulher o que ela nunca tinha sentido: sede de Deus. No meio-dia da vida da samaritana, ela encontra o sétimo marido, o perfeito. Ao conhecê-lo ela passou a experimentar uma vida nova, descobriu que só na fonte divina pode realizar as suas necessidades. Por isso, se decidiu a abandonar a sua vida de prostituição (seis maridos), deixou o seu “cântaro” dos seus vícios e experiências passadas para testemunhar Jesus.

O meio-dia da samaritana foi marcado por alguns passos: encontro, diálogo, conhecimento, transformação, despedida, testemunho. Trata-se do itinerário de conversão que aquela mulher percorreu. A hora sexta tornou-se para ela o momento significativo de redirecionamento de sua história.

Quarta cena: os trabalhadores da vinha


PORQUE o reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha. E disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram. Saindo outra vez, perto da hora sexta (horaékete) e nona, fez o mesmo (Mt 20,1.4-5).

A parábola dos trabalhadores enviados à vinha deixa claro que cada um dos contratados para assumir o trabalho teve sua hora de ser convocado. Alguns foram chamados ao meio-dia. Considerado que o dia para o judeu tinha doze horas (Jo 11,9), podemos afirmar que aqueles que foram contratados ao meio-dia, se incluiamm no grupo daqueles que já não tinham mais esperança de encontrar um trabalho. No entanto, uma surpresa, o contratante (pai) encontra-os e envia-os para a labuta.

Esta parábola nos ensina que o meio-dia da nossa vida pode ser a hora em que Deus vem ao nosso encontro para nos comprometermos com o seu Reino. O encontro com Ele, no meio-dia da nossa existência, exige que saiamos da nossa “praça do comodismo” para colocar-se a disposição da missão que nos é confiada.

Quinta cena: a crucifixão de Jesus


E desde a hora sexta (éketes horas) houve trevas sobre toda a terra, até à hora nona. E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mt 27, 45-46).

O meio-dia de Jesus foi a hora mais dolorosa de sua vida. Na cruz, se encontrava numa situação de sofrimento, da humilhação e da angústia. Abandonado por muitos de seus seguidores, Jesus faz a experiência da solidão. Foi tentado pela última vez a não assumir a missão de Redenção, ou seja, “descer da cruz” (Mt 27,40). No entanto, esvazia-se de si mesmo e se entrega totalmente a vontade do Pai.

Como Jesus, no meio-dia da nossa vida, nos deparamos com situações extremantes dolorosas. Nesta hora, somos tentados a desanimar por não encontramos sentido para viver. É exatamente nesta hora do meio-dia que somos chamados a tomar uma decisão: assumir a cruz com amor ou fugir dela.

Sexta cena: encontro de Paulo com Jesus no caminho de Damasco


Ora, aconteceu que, indo eu já de caminho, e chegando perto de Damasco, quase ao meio-dia, (mesembrían) de repente me rodeou uma grande luz do céu (At 22,6).

O meio-dia de Paulo se caracterizou por um encontro inesperado com Jesus Ressuscitado no caminho de Damasco. Paulo foi envolvido por uma luz que o fez cair em si mesmo (caiu por terra) (At 9,3-4) e descobrir sua cegueira. Paulo passa a conhecer o Jesus que ardorosamente perseguia. A experiência com Jesus, fez com que o seu meio-dia fosse profundamente marcado por uma transformação radical em sua vida. Aquele que antes perseguia é determinado pelo Senhor a levanta-se e percorrer não mais o caminho dos perseguidores, mas dos apóstolos, de suas testemunhas, daqueles que seguiam o Caminho.

Na experiência de Paulo com Jesus, a hora do meio-dia foi transpassada pela conversão, por uma mudança de pensamento, sentimentos e atitudes. Assim também, no meio-dia da nossa vida, somos interpelados a percorrer caminho de Damasco para encontra-se com Jesus e assim mudarmos de vida. O meio-dia de nossa vida será sempre aquele que fizermos um encontro pessoal e transformador com o Ressuscitado.

Sétima cena: visão de Pedro


E no dia seguinte, indo eles seu caminho, e estando já perto da cidade, subiu Pedro ao terraço para orar, quase à hora sexta (horan éketen). E tendo fome, quis comer; e, enquanto lho preparavam, sobreveio-lhe um arrebatamento de sentidos. E viu o céu aberto, e que descia um vaso, como se fosse um grande lençol atado pelas quatro pontas, e vindo para a terra (At 10,9-10).

O meio-dia era a hora que todo piedoso judeu fazia sua oração. Pedro, estando em oração, tem uma extraordinária experiência espiritual: “viu o céu aberto”. O conteúdo da revelação que Pedro teve era revolucionário. Deus mostra a Pedro que também os pagãos são destinatários da salvação. O convite feito a Pedro para comer os alimentos (At 10,13) se tratava de acolher os gentios na comunidade cristã sem obrigá-los ao cumprimento das leis judaicas. Através dessa revelação, Pedro muda seu pensamento em relação aos povos que não eram Judeus, pois Deus lhe mostrara que “a nenhum homem se deve chamar de profano e impuro” (At 10,28).

Na experiência de Pedro, o meio-dia é rico de significado. É a hora que se dar a comunicação de Deus com o homem. A oração é o canal que possibilita o conhecimento dos desígnios divinos. O céu se abre quando voltamos nossa mente e coração para Deus. Ao contemplarmos as realidades celestes somos convidados a repensar sobre nosso modo de se relacionar com os irmãos. O meio-dia torna-se a hora da transformação da nossa maneira de pensar e agir.

Quem faz a experiência orante, no meio-dia de sua vida, passa a compreender como Pedro que “Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça, lhe é agradável” (At 10,34). A hora do meio-dia torna-se o tempo propicio da descoberta da verdadeira face de um Deus que acolhe no seu plano salvifico todo aquele que o busca de coração sincero.

As cenas bíblicas mencionadas e comentadas nos permite compreender que o meio-dia não se refere simplesmente a um tempo cronológico, mas é carregado de um significado teológico espiritual. O meio-dia não é somente a hora mais quente do dia, mas a hora em que o coração do homem é aquecido pela luz divina, proporcionando-lhe uma transformação em sua vida.

Conclusão do tema do meio-dia


A pesquisa bíblica nos permite chegar a conclusão que o meio-dia tem um profundo significado teológico espiritual e antropológico.

Na visão teológica espiritual o meio-dia é a hora de Deus e do homem. De Deus quem vem ao encontro do homem, e do homem que se deixa encontrar por Ele. Nesse encontro, se estabelece uma relação de intimidade, de diálogo, conhecimento do amado (Deus) com a amada (pessoa humana).

A hora do meio-dia não é simplesmente a hora do repouso físico (sesta) mas do repouso em Deus, ou seja, passamos a sentir sua presença amorosa que proporciona um estado de harmonia interior.

O meio-dia é a hora da decisão do homem diante de Deus, de sua crise, de sua tentação, da descoberta de si mesmo e da vontade de Deus e da sua conversão para uma vida nova que brilhe como o sol do meio-dia.

A partir de uma visão meramente antropológica o meio-dia diz respeito a hora em que o homem se confronta consigo mesmo, suas crises, desafios, frustrações, tristezas, desânimos.

A experiência do meio-dia pode se dá nas mais variadas situações da nossa vida. Por isso, é necessário vigilância para perceber os sinais dos tempos que apontam a presença de Deus. Ele sempre se faz presente, no entanto, a sonolência da fé quando nos atinge pode impedir-nos de descobri-lo. Deus não está longe de nós, mas somos nós que não aprendemos ou temos dificuldades contemplar a sua presença. Como Jacó, é necessário acordar do sonho, e reconhecer que “Na verdade o SENHOR está neste lugar; e eu não o sabia” (Gn 28,16).

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